terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Capítulo XIII - A PIOLHENTA DO JIGUÊ

       


No outro dia por causa da machucadura Macunaíma amanheceu com uma grosseira pelo corpo todo. Foram ver e era a erisipa, doença comprida. Os manos trataram dele bem e traziam diariamente pra casa todos esses remédios pra erisipela que os vizinhos e conhecidos, todos esses Brasileiros aconselhavam. O herói passou uma semana de cama. De-noite sonhava sempre com embarcações e a dona da pensão quando vinha de-manhã por amor de saber como ia o herói dizia sempre que embarcação significava na certa viagem por mar. Depois saía deixando sobre a cama do enfermo o Estado de São Paulo. E o Estado de São Paulo era um jornal. Então Macunaíma gastava o dia lendo todos esses anúncios de remédios pra erisipa. E eram muitos anúncios!
No fim da semana o herói estava descascando bem e foi na cidade buscar sarna pra se cocar. Andou banzando banzando, e muito fatigado por causa da fraqueza parou no parque do Anhangabaú. Chegara bem debaixo do monumento a Carlos Gomes que fora um músico muito célebre e agora era uma estrelinha do céu. O ruído da fontemurmurejando na tardinha dava pro herói a visagem das águas do mar. Macunaíma sentou no parapeito da fonte eassuntou os baguais marinhos de bronze chorando água. E lá na escureza da gruta por detrás da tropilha presenciou uma luz. Fixou mais e distinguiu uma embarcação muito linda que vinha boiando sobre as águas. É uma vigilengamurmurou. Porém a nau vinha chegando cada vez maior. É um gaiola murmurou. Mas o gaiola vinha chegando tão granto tão! que o herói deu um salto sarapantado e
gritou na bôca-da-noite ecoada É um vaticano! O navio já vinha bem visível por detrás dos baguais de bronze. Tinha o corte da velocidade no casco de prata e os mastros inclinados pra trás estavam cheios de bandeiras que o vento da correria imprensava entre as lâminas de ar. O grito chamara os choferes da esplanada e todos curioseavam o gesto parado do herói e seguiam o risco do olhar dele batendo na fonte escura.
— Quê foi, herói?
— Olha lá!... Olha o vaticano macota que vem vindo sobre as águas imensas do mar!
— Aonde!
— Por detrás do cavalo de estibordo!
Então todos viram por detrás do cavalo de estibordo o navio chegando. Já estava bem perto e ia passar entre o cavalo e a parede de pedra, já estava na boca da gruta. E era um navio guaçu.
— Não é vaticano não! é o transatlântico fazendo viagem por mar! gritou um chofer japonês que já fizera muita viagem por mar. E era um transatlântico enorme. Vinha iluminado, relampeava todo de ouro e prata embandeirado e festeiro. Os óculos das cabinas eram colares no casco e nos cinco deques empoleirados corria música entre a gentana dançando mexida no cururu. A choferada comentava:
— É do Lóide!
— Não, é da Hamburgo!
— Vá saindo! tou percebendo! então! É il piróscafo Conte Verde em vez! E era o piróscafo Conte Verde sim. E era a Mãe D'água que vinha bancando piróscafo pra atentar o herói.
— Gente! adeus, gente! Vou pra Europa que é milhor! Vou em busca de Venceslau Pietro Pietra que é o gigante Piaimã comedor de gente! que o herói discursava. E toda a choferada abraçava Macunaíma se despedindo. O vapor estava ali e Macunaíma já pulara no cais da
fonte pra subir a escadinha do piróscafo Conte Verde. Todos os tripulantes na frente da música acenavam chamando Macunaíma e eram marujos forçudos, eram Argentinos finíssimos e eram tantas donas lindíssimas pra gente brincar até enjoar com os balangos das ondas.
— Desce a escadinha, capitão! que o herói exclamou.
Então o capitão tirou o cocar e executou uma letra no ar. E todos, os marujos os Argentinos finíssimos e as cunhas lindíssimas pra Macunaíma brincar, todos esses tripulantes soltaram vaias macotas caçoando do herói enquanto o navio manobrando sem parar dava a popa pra terra e flechava de novo pro fundo da gruta. E todos aqueles tripulantes viraram doentes com erisipa sempre caçoando do herói. E
quando o piróscafo atravessou o estreito entre a parede da gruta e o bagual de bombordo a chaminèzona guspiu uma
fumaçada de pernilongos, de borrachudos mosquitos-pólvora mutucas marimbondos cabas potós môsca-de-ura, todos
esses mosquitos afugentando os motoristas.
O herói sentado no rebordo da fonte penava todo mordido e com mais erisipa, mais, todo erisipelado. Sentiu frio e veio febre. Então espantou com um gesto os mosquitos e caminhou pra pensão.
No outro dia Jiguê entrou em casa com uma cunhatã, fez ela engolir três bagos de chumbo pra não ter filhos e os dois dormiram na rede. Jiguê tinha se amulherado. Ele era muito valente. Passava o dia limpando a espingarda e afiando a lamparina. A companheira de Jiguê todas as manhãs ia comprar macaxeira prós quatro comerem e se chamava Suzi. Porém Macunaíma que era o namorado da companheira de Jiguê, todos os dias comprava uma lagosta pra ela, punha no fundo do jamachi e por cima esparramava a macaxeira pra ninguém não maliciar. Suzi era bem feiticeira. Quando chegava em casa deixava a cesta na saleta e ia dormir pra sonhar. Sonhando ela falava pra Jiguê:
— Jiguê, meu companheiro Jiguê, estou sonhando que tem lagosta por debaixo da macaxeira.
Jiguê ia ver e tinha. Todos os dias era assim e Jiguê tendo amanhecido com dor-de-cotovelo desconfiou. Macunaíma percebeu a dor do mano e fez uma mandinga pra ver si passava. Pegou numa cuia e de-noite deixou-a no terraço, rezando manso:
Água do céu Vem nesta cuia,
Paticl vem nesta água, Moposêru vem nesta água, Sivuoímo vem nesta água, Omaispopo vem nesta água,
Os Donos da Água enxotem a dor-de-corno! Aracu, Mecumecuri, Pai que venham nesta água,
E enxotem a dor-de-corno si o doente beber esta água Em que estão encantados os Donos da Água!
Deu pra Jiguê beber no outro dia porém não surtiu efeito não e o mano andava muito desconfiado.
Quando Suzi se vestia pra ir na feira, assobiava o foxtrote da moda pro namorado ir também. O namorado era Macunaíma, ia. A companheira de Jiguê saía e Macunaíma saía atrás. Andavam brincando por aí e quando chegava a hora da volta já não tinha macaxeira mais na feira. Pois então Suzi disfarçando ia atrás da casa, sentava no jamachi e puxava uma porção de macaxeira de dentro do maissó. Todos comiam muito bem, só Maanape resmungava:
— Caboclo de Taubaté, cavalo pangaré, mulher que mija em pé, libera nós Dominé! e empurrava a comida.
Maanape era feiticeiro. Não queria saber daquela macaxeira não e como andava curtindo fome passava o tempo mastigando ipadu pra enganar. De-noite quando Jiguê queria pular na rede a companheira dele principiava gemendo, falando que estava empanzinada de tanto engolir caroço de pitomba. Era só pra Jiguê não brincar com ela. Jiguê teve raiva.
No outro dia ela foi na feira e assobiou o foxtrote da moda. Macunaíma saiu atrás. Jiguê era muito valente. Pegou numa mirassanga enorme e foi devagarinho atrás deles. Procurou procurou e encontrou Suzi com Macunaíma de, mãos dadas no Jardim da Luz. Já estavam se rindo um pro outro. Jiguê desceu a mirassanga nos dois, levou a companheira pra pensão e deixou o mano fatigado na beira da lagoa entre cisnes.
Do outro dia em diante Jiguê é que fazia as compras deixando a companheira presa no quarto. Suzi sem quefazer passava o tempo contrariando a moralidade mas uma feita o santo Anchieta vindo ao mundo passou pela casa dela e por piedade ensinou-a a catar piolhos. Suzi possuía uns cabelos ruivos à la garçonne e sustentava muitos piolhos, muitos! Agora não sonhava mais que tinha lagostas por debaixo da macaxeira nem não fazia imoralidades. Quando Jiguê par- tia ela tirava os cabelos e espetando-os no porrete do companheiro, catava piolhos. Mas tinha muitos piolhos, muitos! Então com medo que o companheiro apanhasse ela no trabalho, falou assim:
— Jiguê, meu companheiro Jiguê, quando você volta do mercado bate primeiro na porta, bate todos os dias uma porção de tempo pra mim ficar contente e ir cozinhar a macaxeira.
Jiguê falou que sim. Todos os dias ia no mercado comprar macaxeira e quando voltava batia demorado na porta. Então a cunha botava os cabelos na cabeça e ficava esperando Jiguê.
— Suzi, minha companheira Suzi, bati uma porção de vezes na porta, será que você alegrou?
— Muito! ela fez. E foi cozinhar a macaxeira.
E todos os dias eram assim. Mas tinha muitos piolhos, muitos! É que ela contava os catados um por um e por isso os piolhos aumentavam. Uma feita Jiguê matutou no que ficava fazendo a companheira quando ele ia no mercado e teve vontade de assustá-la, fez. Virou de pernas pro ar e veio andando nas pontas das mãos. Abriu a porta e assustou Suzi. Isso ela gritou botando afobada a cabeleira na cabeça. E os cabelos da testa ficaram no cangote e os cabelos do cangote ficaram na testa escorrendo. Jiguê xingou Suzi de porca e deu nela até escutar alguém subindo a escada. Era Chico vindo de baixo. Então Jiguê parou e foi afiar a bicuda.
No outro dia Macunaíma estava outra vez com vontade de brincar com a companheira de Jiguê. Falou prós manos que ia numa caçada longe porém não foi não. Comprou duas garrafas de licor de butiá catarinense uma dúzia de sanduíches dois abacaxis de Pernambuco e se amoitou no quartinho. Passado tempo saiu de lá e falou pra Jiguê, mostrando o embrulho:
— Mano Jiguê, no fim de muitas ruas, você indo, tem uma fruteira trilhada. Vi um poder de caça, vá ver! O mano espiou desconfiado pra ele porém Macunaíma disfarçou bem:
— Olhe, tem paca tatu cotia... Minto, cotia não enxerguei nenhuma. Paca tatu, cotia não. Jiguê emprenhava pelas oiças mesmo, foi logo pegando na espingarda e falou:
— Então vou porém mano jura primeiro que não brinca com minha obrigação.
Macunaíma jurou pela memória da mãe que nem olhava pra Suzi. Então Jiguê tornou a pegar na espingarda-pá e na faca de ponta-tá tatatá e partiu. Macunaíma nem bem Jiguê virou a esquina ajudou Suzi abrindo os embrulhos e botando uma toalha da renda famosa chamada Ninho de Abelha cujo papelão fora roubado em Muriú do Ceará Mirim pela danada Geracina da Ponta do Mangue. Quando tudo ficou pronto os dois pularam na rede e brincaram. Agora estão se rindo um pro outro. Depois de rirem bastante, Macunaíma falou:
— Desarrolha uma garrafa pra gente beber.
— Sim, ela fez. E beberam a primeira garrafa de licor de butiá que era muito gostoso. Os dois estalaram a língua e pularam na rede outra vez. Brincaram quanto quiseram. Agora estão se rindo um pro outro.
Jiguê andou légua e meia, foi até no fim das ruas, campeou a fruteira uns pares de vezes, muito tempo, jacaré achou? nem ele! Não tinha fruteira nenhuma e Jiguê voltou campeando sempre por todos os fins das ruas. Afinal chegou subiu no quarto e encontrou mano Macunaíma com a Suzi já rindo. Jiguê teve raiva e deu uma coca na companheira. Agora ela está chorando. Jiguê agarrou o herói e chegou o porrete com vontade nele. Deu que mais deu até Manuel chegar. Manuel era o criado da pensão, um ilhéu. Agora o herói está fatigado. E Jiguê que vinha padecendo de fome. então comeu as sanduíches os abacaxis e bebeu o licor de butiá.
Os dois sovados passaram a noite se lastimando. No outro dia Jiguê enfarado pegou na sarabatana e saiu pra ver si encontrava à tal de fruteira. Jiguê era muito bobo. Suzi viu ele sair, enxugou os olhos e falou pro namorado:
— Choremos não.
Então Macunaíma desamarrou a cara e se arranjou pra ir falar com mano Maanape. Jiguê de volta na pensão perguntou pra Suzi:
— Onde anda o herói?
Porém ela estava zangadíssima e principiou assobiando. Então Jiguê agarrou no porrete, se chegou pra companheira e disse muito triste:
— Vai embora, perdição!
Daí ela sorriu feliz. Catou sem contar todos os piolhos que restavam e eram muitos piolhos, atrelou-os a uma cadeira-de-balanço, sentou nela, os piolhos pularam e Suzi foi pro céu virada na estrela que pula. É uma zelação.
O herói nem bem viu Maanape de longe pegou se lastimando. Se atirou nos braços do mano e contou uma história bem triste provando que Jiguê não tinha razão nenhuma pra sová-lo tanto. Maanape ficou zangado e foi falar comJiguê. Mas Jiguê também já vinha pra falar com Maanape. Se encontraram no corredor. Maanape contou pra Jiguê e Jiguê contou pra Maanape. Então eles verificaram que Macunaíma era muito safado e sem caráter. Voltaram pro quarto de Maanape e toparam com o herói se lastimando. Pra consolar levaram ele passear na máquina automóvel.


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