quarta-feira, 8 de junho de 2016

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo III







Ci, MÃE DO MATO


Uma feita os quatro iam seguindo por um caminho no mato e estavam penando muito de sede, longe dos igapós e das lagoas. Não tinha nem mesmo umbu no bairro e Vei, a Sol, esfiapando por entre a folhagem guascava sem parada
o lombo dos andarengos. Suavam como numa pagelança em que todos tivessem besuntado o corpo com azeite de piquiá, marchavam. De repente Macunaíma parou riscando a noite do silêncio com um gesto imenso de alerta. Os outros estacaram. Não se escutava nada porém Macunaíma sussurrou:
— Tem coisa.
Deixaram a linda Iriqui se enfeitando sentada nas raízes duma samaúma e avançaram cautelosos. Já Vei estava farta de tanto guascar o lombo dos três manos quando légua e meia adiante Macunaíma escoteiro topou com uma cunha dormindo. Era Ci, Mãe do Mala Logo viu pelo peito destro seco dela, que a moça fazia parte dessa tribo de mulheres sozinhas parando lá nas praias da lagoa Espelho da Lua, coada pela Nhamundá. A cunha era linda com o corpo chupado pelos vícios, colorido com genipapo.
O herói se atirou por cima dela pra brincar. Ci não queria. Fez lança de flecha tridente enquanto Macunaímapuxava da pageú. Foi um pega tremendo e por debaixo da copada reboavam os berros dos briguentos diminuindo de medo os corpos dos passarinhos. O herói apanhava. Recebera já um murro de fazer sangue no nariz e um lapo fundo de txara no rabo. A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue no corpo do herói soltando
berros formidandos que diminuíam de medo os corpos dos passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porque não podia mesmo com a icamiaba, o herói deitou fugindo chamando pelos manos:
— Me acudam que sinão eu mato! me acudam que sinão eu mato!
Os manos vieram e agarraram Ci. Maanape trançou os braços dela por detrás enquanto Jiguê com a murucu lhe dava uma porrada no coco. E a icamiaba caiu sem auxílio nas samambaias da serrapilheira. Quando ficou bem imóvel, Macunaíma se aproximou e brincou com a Mãe do Mato. Vieram então muitas jandaias, muitas araras vermelhas
tuins coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo Imperador do Mato-Virgem.
E os três manos seguiram com a companheira nova. Atravessaram a cidade das Flores evitaram o rio das Amarguras passando por debaixo do salto da Felicidade, tomaram a estrada dos Prazeres e chegaram no capão de Meu Bem que fica nos cerros da Venezuela. Foi de lá que Macunaíma imperou sobre os matos misteriosos, enquanto Ci comandava nos assaltos as mulheres empunhando txaras de três pontas.
O herói vivia sossegado. Passava os dias marupiara na rede matando formigas taiocas, chupitando golinhos estalados de pajuari e quando agarrava cantando companhado pelos sons gotejantes do cotcho, os matos reboavam com doçura adormecendo as cobras os carrapatos os mosquitos as formigas e os deuses ruins.
De noite Ci chegava recendendo resina de pau, sangrando das brigas e trepava na rede que ela mesmo tecera com fios de cabelo. Os dois brincavam e depois ficavam rindo um pro outro. Ficavam rindo longo tempo, bem juntos. Ci aromava tanto que Macunaíma tinha tonteiras de moleza.
— Puxa como você cheira, benzinho!
que ele murmurava gozado. E escancarava as narinas mais. Vinha uma tonteira tão macota que o sono principiava pingando das pálpebras dele. Porém a Mãe do Mato inda não estava satisfeita não e com um jeito de rede que enlaçava os dois convidava o companheiro para mais brinquedo. Morto de soneira, infernizado, Macunaíma brincava para não desmentir a fama só porém quando Ci queria rir com ele de satisfação:
— Ai! que preguiça!...
que o herói suspirava enfarado. E dando as costas para ela adormecia bem. Mas Ci queria brincar inda mais... Convidava convidava... O herói ferrado no sono. Então a Mãe do Mato pegava na txara e cotucava o companheiro. Macunaíma se acordava dando grandes gargalhadas estorcegando de cócegas.
— Faz isso não, oferecida!
— Faço!
— Deixa a gente dormir, meu bem...
— Vamos brincar.
— Ai! que preguiça!... E brincavam mais outra vez Porém nos dias de muito pajuari bebido, Ci encontra o Imperador do Mato-Virgem largado por aí num
porre mãe. Iam brincar e o herói esquecia no meio.
— Então, herói!
— Então o quê!
— Você não continua?
— Continua o quê!
— Pois, meus pecados, a gente está brincando e vai você pára no meio!
— Ai! que preguiça... Macunaíma mal esboçava de tão chumbado. E procurando um macio nos cabelos da companheira adormecia feliz. Então pra animá-lo, Ci empregava o estratagema sublime. Buscava no mato a folhagem de fogo da urtiga e
sapecava com ela uma coça coçadeira no chuí do herói e na nalachítchi dela. Isso Macunaíma ficava que ficava um lião querendo. Ci também. E os dois brincavam que mais brincavam num deboche de ardor prodigioso.
Mas era nas noites de insônia que o gozo inventava mais. Quando todas as estrelas incendiadas derramavam sobre a Terra um óleo calorento que ninguém não suportava de tão quente, corria pelo mato uma presença de incêndio. Nem a passarinhada agüentava no ninho. Mexia inquieta o pescoço, voava pro galho em frente e no milagre mais enorme deste mundo inventava de sopetão uma alvorada preta, cantacantando que não tinha fim. A bulha era tremenda o cheiro pode- roso e o calor inda mais.
Macunaíma dava um safanão na rede atirando Ci longe. Ela acordava feito fúria e crescia pra cima dele.
Brincavam assim. E agora despertados inteiramente pelo gozo inventavam artes novas de brincar. Nem bem seis
meses passaram e a Mãe do Mato pariu um filho encarnado. Isso, vieram famosas mulatas da Bahia, do Recife, do
Rio Grande do Norte e da Paraíba, e deram pra Mãe do Mato um laçarote rubro cor de mal, porque agora ela era
mestra do cordão encarnado em todos os Pastoris de Natal. Depois foram-se embora com prazer e
alegria, bailando que mais bailando, seguidas de futebóleres águias pequenos xodós seresteiros, toda essa rapaziada dorê. Macunaíma ficou de repouso o mês de preceito porém se recusou a jejuar. O pecurrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:
— Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro.
Todas as icamiabas queriam bem o menino encarnado e no primeiro banho dele puseram todas as jóias da tribo pra que o pequeno fosse rico sempre. Mandaram buscar na Bolívia uma tesoura e enfiaram ela aberta debaixo do cabeceiro porque sinão Tutu Marambá vinha, chupava o umbigo do piá e o dedão do pé de Ci. Tutu Marambá veio, topou com a tesoura e se enganou: chupou o olho dela e foi-se embora satisfeito. Todos agora só matutavam no pecurrucho. Mandaram buscar pra ele em São Paulo os famosos sapatinhos de lã tricotados por dona Ana Francisca de Almeida Leite Morais e em Pernambuco as rendas Rosa dos Alpes, Flor de Guabiroba e Por ti padeço tecidas pelas mãos de dona Joaquina Leitão mais conhecida pelo nome de Quinquina Cacunda. Filtravam o milhor tamarindo das irmãs Louro Vieira, de Óbidos, pro menino engolir no refresco o remedinho pra lombriga. Vida feliz, era bom!... Mas uma feita jucurutu pousou na maloca do imperador e soltou o regougo agourento. Macunaíma tremeu assustado espantou os mosquitos e caiu no pajuari por demais pra ver si espantava o medo também. Bebeu e dormiu noite inteira. Então chegou a Cobra Preta e tanto que chupou o único peito vivo de Ci que não deixou nem o apojo. E como Jiguê não conseguira moçar nenhuma das icamiabas o curumim sem ama chupou o peito da mãe no outro dia, chupou mais, deu um suspiro envenenado e morreu.
Botaram o anjinho numa igaçaba esculpida com forma de jaboti e prós boitatás não comerem os olhos do morto o enterraram mesmo no centro da taba com muitos cantos muita dança e muito pajuari.
Terminada a função a companheira de Macunaíma toda enfeitada ainda, tirou do colar uma muiraquitã famosa,deu-a pro companheiro e subiu pro céu por um cipó. É lá que Ci vive agora nos trinques passeando, liberta das formigas, toda enfeitada ainda, toda enfeitada de luz, virada numa estrela. É a Beta do Centauro.
No outro dia quando Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha. Trataram dela com muito cuidado e foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol.











Links:


Sanderlei Silveira

Conheça seu Estado - História e Geografia

Poesia em Português, Inglês, Espanhol e Francês

Obra completa de Machado de Assis

História em 1 Minuto

Curso de Idiomas (Inglês e Espanhol)

Áudio Livro

Livros - Online

Billboard Hot 100 - Letras de Músicas

Developer - Treinamento, Manuais, Tutoriais

Santa Catarina - Conheça seu Estado

São Paulo - Conheça seu Estado

Paraná - Conheça seu Estado

Mato Grosso do Sul - Conheça seu Estado

Educação Infantil

Língua Portuguesa e Atualidades

Arte e Estética

TOP 50:


As festas populares no estado de São Paulo

Atividades extrativistas do estado de São Paulo

Adolf Hitler - Mein Kampf - Download

Áreas de preservação no estado de São Paulo

Assalto - Carlos Drummond de Andrade

Atividades extrativistas do Mato Grosso do Sul

Machado de Assis - O Alienista - PDF Download

Gonçalves Dias - Marabá

As festas populares no estado do Paraná

O tropeirismo no estado do Paraná

Biomas brasileiros

Bacias hidrográficas do estado de São Paulo

A população africana e a escravidão no Paraná

Áreas de preservação do estado do Paraná

Mário de Andrade - Macunaíma - Download

As comunidades quilombolas no Mato Grosso do Sul

As atividades econômicas do estado de São Paulo

Atividades extrativistas de Santa Catarina

Áreas de preservação do estado do Mato Grosso do Sul

Atividades extrativistas no Paraná

Os imigrantes no século XIX e XX no estado do Paraná

Jogos para Crianças - Dengue

As festas populares do Mato Grosso do Sul

Adolf Hitler - Mein Kampf - CAPÍTULO XI - POVO E RAÇA

Os biomas do estado do Mato Grosso do Sul

A urbanização do estado de São Paulo no início do século XX

Os índios Xetá do estado do Paraná

As atividades econômicas do Paraná

Clima e relevo do estado do Paraná

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO CXVII / O HUMANITISMO

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas - CAPÍTULO CLX / DAS NEGATIVAS

Áreas de preservação do estado de Santa Catarina

O relevo do estado de São Paulo

As atividades econômicas de Santa Catarina

A organização do espaço geográfico brasileiro

O Diário de Anne Frank - Download

Gregorio de Matos - Ao braco do mesmo menino Jesus quando apareceu

Os imigrantes no estado de Santa Catarina no século XX

A imigração europeia no estado do Paraná

Machado de Assis - Dom Casmurro - CAPÍTULO LXII - UMA PONTA DE IAGO

A poluição do rio Iguaçu (maior rio do Paraná)

10. Mitologia Grega

Elizabeth Barrett Browning - Sonnet 43 - How Do I Love Thee?

A população indígena no estado de São Paulo em 2015

05. Religião – Idade Antiga

Machado de Assis - Esaú e Jacó - CAPÍTULO LXIII - TABULETA NOVA

A formação da cultura de Santa Catarina

Clima e relevo de Santa Catarina

Mário de Andrade - Macunaíma - Capítulo XVII - URSA MAIOR

A população africana no Brasil e a escravidão

Outros Links:


Obra completa de Machado de Assis

Machado de Assis - Dom Casmurro

Machado de Assis - Quincas Borba

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas

O Diário de Anne Frank

Educação Infantil

Bíblia Online

História e Geografia

Casa do Sorvete

Sanderlei Silveira

Conheça seu Estado - História e Geografia

Poesia em Português, Inglês, Espanhol e Francês

Santa Catarina - História e Geografia

Paraná - História e Geografia

Mato Grosso do Sul - História e Geografia

São Paulo - História e Geografia

Mário de Andrade - Macunaíma

Adolf Hitler - Mein Kampf



Nenhum comentário:

Postar um comentário